Quando eu escutei umas vozes e uns cantos diferentes.

 Acordei de manhã e fui verificar o território. Não percebi nada de anormal até eu escutar uns assobios que nunca havia escutado. Comecei a farejar e senti o cheiro de um animal diferente na área, o que me deixou curioso.

 De novo vasculhei o território e não o encontrei, mas na frente de casa e acima do terreno, o cheiro do animal estava menor. Então ele deveria estar perto da cozinha da casa. Fui farejar debaixo da mesa que fica sob o puxadinho, caso fosse algum roedor diferente escondido ali. Mas meu faro apontou que não era de debaixo da mesa que vinha o cheiro do animal, embora o odor dele se espalhava por aquela área.

 Voltei a deitar-me na minha cama e lá escutei umas conversas de animais. Conversas que só os animais escutam e os humanos não.

 - Hei, vocês! Estão comendo uma comidinha?

 - Nós temos que procurar comida. Disse um pardal.

 Saí apressadamente pela porta da cozinha para ver quem conversava e vi pardais se espanterem de mim.

 - Com quem vocês estavam conversando? Perguntei a eles.

 Não obtive resposta. Talvez os pardais sejam amigos das pombas que tento pegar e não conversem comigo. De repente eu escuto:

 - Deixe eles comerem em paz. Não ouviu que eles precisam procurar comida e nós não?

  Minha dona havia chacoalhado o pano da mesa lá fora e cairam migalhas de pão do café da manhã dela e da minha outra dona. E os pardais vieram comer, até eu chegar e espantá-los.

 - Quem está falando? Perguntei.

 -  É assombração!

 Quando escutei aquilo me deu medo, mas criei coragem e comecei a latir. Será que era possível eu morder uma assombração caso fosse necessário? de repente chega a Nice para ver porque eu estava latindo.

 - Simba, porque está latindo?

 Comecei a choramingar para ela como alguns cachorros fazem, pois vocês não sabem como é frustrante para os animais não serem escutados pelas pessoas. Olhei no rosto dela para saber se ela estava assutada com alguma sombração, mas não estava. Fiquei mais calmo. Ela entrou na casa e escutei a voz de novo:

 - Hei dona, volte aqui! Venha conversar comigo.

 - Não volte porque é uma assombração! Falei alto como se as pessoas nos escutassem.

  Tive uma ideia. Vou dar uma volta lá na frente da casa e se a assombração resolver aparecer na minha ausência, eu poderia pegá-la quando voltasse de repente. Então me dirigi a frente da casa farejando de novo. Senti o odor de uns pardais, mas nem puxei conversa, pois não queria ser ignorado de novo por eles. Fiquei deitado lá por cinco minutos e voltei correndo esperando encontrar a assombração. Esta técnica já funcionou contra gatos!

 Quando voltei, achei o local vazio, a não ser por algo mais que havia lá. Uma gaiola grande com um pássaro amarelo dentro. Resolvi olhar debaixo do pé de acerola caso a assombração estivesse lá, mas juro que comecei a acreditar que esta assombração tem asas e está presa numa gaiola!

  - Quer dizer que você é o pássaro que não quer conversar comigo? Eu disse.

 Ele começou a cantar com naturalidade sem conversar. Voltei para minha caminha e deitado disse:

 - Sabe, existem uns gatos que aparecem de vez em quando. Eu posso lhe ajudar a não ficar intimidado por eles.

 - Meu nome é Valdívia, tudo bem?

 - Prazer, Simba.

 - O prazer é meu. Ele respondeu.

 Então fiquei ali deitado, de olhos abertos. Porque poderia ser uma assombração de verdade que havia falado comigo, além da calopsita!



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